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Angela Maria, orgulho e eu

 

        Angela Maria cantava na tevê e nos discos rodando na vitrola da minha casa.  A voz poderosa - nos tempos quando ainda não falavam de mulher empoderada – era considerada uma das mais bonitas do país e o Brasil sempre teve tradição de grandes cantoras.  Angela declarava a influência de Dalva de Oliveira e influenciaria Ellis Regina. 

        O sucesso mais lembrado de Angela Maria é “Babalu”, um mambo cubano de Celia

Cruz que celebra o velório de alguém que tinha esse apelido ou nome.  Angela Maria conta que Waldir Calmon, pianista líder de um conjunto, pediu que ela ensaiasse a música para um disco dele.  A cantora ensaiou e não precisou gravar.  O ensaio valeu. 

        A música persegue Angela Maria até hoje e ela revelou que não é uma das suas favoritas.  No entanto, não se pode discutir com o público que insiste em pedir “Babalu” em todos os shows que faz.  Há pouco tempo, vi um show dela no teatro da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, maravilhoso. Um fenômeno parecido aconteceu com Cauby Peixoto, parceiro de Ângela inúmeras vezes e grande amigo, que não tinha preferência por “Conceição” (Jair Amorim e Dunga) mas era a marca registrada dele. 

        Minha música predileta no repertório de Angela Maria é “Orgulho” (Nélson Wederkind e Waldir Rocha) que ainda ouço com encanto.  A canção é sobre alguém dizendo que vai embora mas levará o orgulho de não mais voltar mesmo que a vida se torne cruel e o sofrimento imenso.  O consolo da pessoa desprezada é que um dia Deus castigará um dos dois, aquele que for merecedor do castigo. Porque, afinal, o Criador sabe quem errou dos dois.

        Na música, orgulho significa brio, honradez, dignidade, amor-próprio.  Afinal, já que a pessoa não lhe quer mais, está tudo acabado e seguirá a vida.  Na personagem não existe mágoa de mau perdedor ou vontade de estragar a vida de quem lhe desprezou.   Mesmo com todo sofrimento, não se humilhará nem se dobrará pedindo amor a quem lhe deixou de amar.

        Na voz de Angela Maria, “Orgulho” assume a dimensão de um hino à dignidade, uma postura que, nestes tempos pelos quais atravessamos, merece profunda reflexão.