Leia

A cura da calvície.

              João Carlos Viegas.

 

      Numa banca de jornal, vi um sujeito gritando: "Japonês é o bicho! Japonês não é qualquer um não!" e dizia isso apontando para uma notícia sobre cientistas japoneses que teriam descoberto a cura da calvície.  Não entendi a alegria do cara porque nem careca era.  Concluí que deveria ser um admirador da competência do povo japonês que, agora, acreditava na extinção da calvície porque era do Japão que vinha a notícia. 

      Na verdade, duas coisas mexem com a humanidade: a busca da juventude eterna e a cura da calvície.  O navegador Ponce de León inventou que existia uma fonte da juventude na América para atrair gente na viagem temerária ao novo continente.  Nunca se achou a tal fonte onde o banho garantiria a redução da idade.  É claro que, depois (e muito depois) vieram a cirurgia plástica, o botox e outros tratamentos.  Mas nada seria tão prático e regenerador quanto o mergulho na fonte da juventude. 

      E a descoberta da cura da calvície? 

      Primeiro não concordo com cura porque calvície não é doença.  Sugiro 'a solução para a queda de cabelos'.  Todas as promessas que faziam crescer pelos, não deram certo. 

      Certa vez, eu trabalhava no rádio e apareceu um cidadão garantindo ter descoberto uma loção que fazia crescer cabelos.  Desconfiei que não era verdade quando reparei que, no alto da cabeça, ele usava uma peruca.  Havia depoimentos de pessoas que testaram a tal loção e os cabelos cresceram.  Mas por que no inventor da loção o líquido não funcionava?  Ele explicou que a loção só fazia efeito em quem estava no começo da calvície.  No caso dele, a descoberta fora tardia.  Sei que ele chegou a fazer sucesso com a loção mas sumiu depois de ganhar algum dinheiro e antes da farsa ser descoberta.

      Agora, cientistas japoneses garantem que descobriram o fim calvície através de um processo baseado em células tronco.  Torço para que seja verdade e os carecas tenham o couro cabeludo regenerado.  Que todos exibam fartas cabeleiras e vivam sem o constrangimento dos cabelos perdidos no pente, no box do banheiro, no travesseiro, no estresse de cada dia.  Que os cabelos cresçam lisos ou crespos, louros ou castanhos.  Que cresçam até se tornarem brancos lembrando a entrada na última fase da vida.  E, quando a morte chegar anunciando o final de tudo, um leve arrepio há de percorrer cada fio de cabelo e, no leito da agonia, o ex-calvo elevará um pensamento de gratidão aos cientistas japoneses.  Depois, descansará em paz.