Leia

Amaro de Souza, o infausto.

         Amaro de Souza trazia má sorte, diziam.  Um infausto, alguém falou e deixou Fausto, taxista que só vivia no ponto porque recusava passageiro, incomodado.  Afinal, fora batizado como Fausto e alguém acusado de sem sorte era chamado de um nome parecido com o dele.

- Li por aí que infausto é alguém de mau agouro. Não tem nada a ver contigo. - Chico, figura que parava no ponto de táxi porque nada tinha o que fazer em casa, explicou.

         O taxista garantia que Amaro trouxera essa onda de uber, concorrência que deixava Fausto furioso.

- Quem alimenta o Uber é você recusando passageiro porque a corrida é curta ou porque a corrida é longa.  – lembra Chico.

- Depois que ele entrou no meu carro, não peguei mais passageiro. – garantiu Fausto.

         Amaro tinha cara de sério e, olhando assim para ele, não se vislumbrava motivo de infortúnio.  No entanto, garantiam que o rapaz era um ímã trazendo para si e para o entorno a desdita.

        Mestre Juba, por exemplo, capoeirista e pai de santo, aconselhava e dava passes no Amaro.  Inclusive, havia promessa de iniciar o desditoso nos segredos do terreiro onde o caipora teria ascensão hierárquica. 

         Num sábado, em meio a uma sessão, um sujeito mascarado entrou na casa de santo de Mestre Juba e, aproveitando que a cantoria do ponto estava alta, disparou acertando no centro da testa do religioso.  Os relatos foram de que, primeiro, o santo subiu; depois, já assumido com o corpo do cavalo, Mestre Juba deu um suspiro olhando para Amaro.  Já desencarnando, ele deixara a acusação de que perdera a sorte ao se envolver com aquele portador de urucubaca.

         O assassinato de Mestre Juba foi arquivado e a versão mais corrente dava conta que o crime fora passional.  O pai de santo teria se envolvido com uma mulher casada com um miliciano.  Parece que Amaro é que apresentou a moça ao Mestre Juba.  Daí, culparam o coitado pelo caso amoroso, pela ira do corno e, finalmente, pelo projetil fatal.

         Amaro tinha cargo comissionado no gabinete de um deputado como assessor de uma função desconhecida, mas está sem emprego fixo porque o político não foi reeleito.  Atualmente, a mãe banca despesas extras de Amaro com o salário garantido que pinga todo mês como funcionária do Ministério do Trabalho. 

         Amaro acredita que a situação vai se reverter em breve e – com o Brasil melhorando – ele vai junto.  Se o país não melhorar, as opções seriam a cidadania portuguesa já que os avós eram do Alentejo ou tentar a sorte como clandestino nos Estados Unidos.  Inclusive, já estaria organizando uma caravana para entrar lá pulando a fronteira com o México.

         É claro que não existe pessoa alguma atraindo  má sorte.  No entanto, com Amaro de Souza, o infausto; é bom não facilitar.  Dizem que cruzar os dedos, bater na madeira, figa, se benzer ou tudo isso ao mesmo tempo dá resultado.